Quebrante (2007) - Editado

sexta-feira, maio 09, 2014 Hell F. 6 Comentários

Dedicado a uma grande amiga.

E de que me valem teus restos mortais como souvenir, se nem Vossa Senhoria pode preservar sua própria vida? Como poderia me querer feliz, se não passas de ilusão de ótica e mal sabes o que é felicidade?

O nariz coça enquanto o prazer é curto e absoluto, mas o luto pela sanidade logo chega, e tem um nome que não permite ser pronunciado - e eu o gritei! Onde eu estava com a cabeça ninguém pode dizer..

Se me tirou o único motivo de não afundar, seria uma mão me puxando pro poço sem volta? Será esse o teu cruel e claro sinal de que minha hora também é agora? Quem paga esse efeito é meu bolso, eu sei, mas quem banca minhas lágrimas? Ninguém? As ruas lotadas se tornaram vazias, os outros amigos viraram tédio pra me consolar, eu nem queria estar aqui - mas se estou, é porque ainda há uma razão para continuar nessa estrada imunda. Ou meu aluguel de serenidade venceu e ninguém bateu na porta pra avisar?

Eu estou do lado oposto dessa briga, sei que espernear não é opção. Me trancaram num calabouço só pra apanhar e perceber que ninguém mais intercederá por mim, ingenuidade sua achar que eu não aprendi nada com isso. Entrei nessa contramão tantas vezes neste pouco tempo que já perdi as contas, reverenciei o Deus errado e agora sou cobrada pelo que nunca tive em mãos.

Essa alegria descartada me tirou do peito o que mais ninguém teve, uma luz no labirinto em que todos conhecem o caminho de volta, mas não querem voltar. E quanto mais penso: "to fodida", mais escuto: "tudo vai ficar bem". Tudo bem o caralho, o sangue falido naquelas veias se contaminou única e exclusivamente por culpa minha, eis o peso de se levar até o fim.

Prefiro virar as costas e ficar infeliz por um tempo, querendo colocar as tripas pra fora e não conseguir. Querer desaparecer nos meus próprios passos e ainda me enxergar na sombra colada ao chão. Pode parecer fácil para todos vocês, espectadores do caos, me julgar como se minha felicidade não fosse tão descartável quanto as suas. E derramar prantos falsos no túmulo enquanto pensavam "já foi tarde"! Mas vocês se esquecem que aqui existe mais humanidade do que aí, nessa pretensão fria de quem nem sabe fingir direito.

Eu me dei ao luxo de não ter que fingir mais. E de seguir sozinha pagando pelos pecados que induzi outros a cometerem, me preservando no comodismo safado de quem nada teme além de si mesmo. Sem fachada, com apenas um arrependimento que vale mais do que todos os seus.

Não darei o gostinho de ter que implorar por colo, autoajuda ou por uma noite decente que termina cedo graças ao estimado sono de qualidade. E aquele resto de pó continuará no saco até a coragem de dar descarga me vencer. Me permito ser eu mesma, deixando a lágrima cair sem pressa, pra ela perder a timidez sem forçar. E levar comigo a raiva contida de não ter sido ouvida quando, pela primeira vez na vida, eu estava certa.

Mas graças ao teu golpe pelas costas, eu me revirei do avesso e descobri que nossa parte mais bonita é aquela que a gente nunca mostra. Eu agora me deixarei ser estúpida o suficiente pra abandonar meus vícios sem precisar ser jovem como minha idade oferece. Mas serei madura o bastante para não acreditar mais em quem mente pra si mesmo. E virar as costas pro mesmo mal que levou quem sempre esteve comigo, do pior paraíso ao melhor inferno.

Hoje prefiro caçar o sentido da vida sem armas, sem indiretas, sem consequências cruéis que ferem mais a quem dispara do que quem recebe. Eu, me arremessar nesse rio novamente? Sem ninguém pra esperar do outro lado com a medíocre medalha de honra? Nem pensar...

Sou a dama mais honrada que você já viu, meu truque é sorrir te mandando tomar no cu em pensamento. Gente como eu transforma jaula em poeira. Não é porque enjoei de café que enjoei do cheiro. Não sei jogar xadrez, mas disseram que foi xeque-mate para mim. Nem me importei. Apenas vingarei aquela alma perdida no meu próprio caminho, até a felicidade ser de fato real. Te levo comigo, meu outro pedaço. Amizade verdadeira, pecados absolvidos.


Hell
{Ellen F}


In memoriam (Sabrina Silva, 1987 - 2004).



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Hell (bat0mcomalcool)

AUTOR

Hell (bat0mcomalcool). Vulgo Hell {Ellen F.}. Ex-punk, fumante inveterada, colorida e rabiscada. Geminiana em dobro. Filha de Xoroquê e neta da Grande Mãe. Adotou o deboche como filosofia de vida e aceita a decadência como eterna companhia. Viciada em História, política, poesia, cultura vintage, seriados, literatura e The Sims.

6 comentários:

  1. Simplesmente digníssimo
    Parabéns
    Virei fã !

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  2. Amei...sem palavras ... Ellen só confirmando que merece o posto de minha escritora favorita ♥

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  3. Nossa, impressionante seu estilo de escrita... Parabéns!

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  4. cada vez que leio um texto teu fico impressionada com tua capacidade de se expressar
    vc eh muito foda MUITO mesmo
    deu vontade de chorar kkkk

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  5. honestamente esse é um dos melhores textos que jah li ♥

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