A tal bosta da autoajuda (2008) - Editado

sábado, março 15, 2014 Hell F. 3 Comentários


Baseado em fatos reais.

- Opa, e ? Que cara é essa, meu? De ressaca em plena terça-feira?
- Sei lá mano, eu ando tão esquisita...
- E esse cabelo , todo preto? Revoltou?
- Pois é, cansei de rosa...
- Hum. E aí, o que vai fazer mais tarde?
- Augusta. Vamos?
- Inferno?
- Não tá aberto hoje. Mas o Vitrine está. 20h.
- Suave, firmou então.
- Fechou!

E lá está a metade da metade da metade da metade dos meus amigos, enchendo a cara na calçada. Minha mesa lotada - como sempre. Gente que nunca vi na vida, gente que sempre vejo na vida – como sempre. Gente que vejo mais do que meus pais. Fato.
- Uma rodada de Jose Cuervo por conta da casa...
Tiro do bolso o rascunho elaborado no tédio do antigo estágio:
“Eu nem quero mais aquele amor que faça as pernas tremerem. Minha lucidez já treme na ausência da cachaça por si só. Eu quero suor fedendo a álcool sabe, aquela troca de corpos sem precisar tocar ninguém, trocar ideia com quem entenda o que ainda não obtive resposta, alguma luz que não seja artificial como as dessa cidade. Eu quero sair do chão sóbria e consciente, cada passo lúcido e duro como a realidade“
Percebi que há muito eu desisti de amor, de felicidade ou de ajuda sobrenatural, por mais que isso já esteja enraizado em mim. Notei que meus textos mais confundiam do que esclareciam. E quantas vezes escutei sermões de quem nem sabia do que eu estava falando...
O fato é que ninguém pode abrir a boca pra disparar a calúnia de que eu nunca ao menos tentei... Eu tentei lutar por um ideal, juro! Protestos na Paulista, no Setor Comercial, em “Satãndré”, na Sé, na Esplanada e aonde quer que eu estivesse... Cansei. Quer saber? Nunca adiantou porra nenhuma. Os livros que li, as belas palavras de incentivo que escutei, aquele lirismo utópico da esquerda... Na boa? Nunca me serviram pra nada. Fiz um A de anarquia nas costas – à toa. Fiz amizades que hoje se matam em rolês opostos. Pensei por mim mesma pela primeira vez na vida e agora aqueles que um dia me juraram amizade eterna, hoje me chamam de nazi pelas costas.
Mas sabe o que é? É que cansei de ver gente à toa fazendo volume sem nem saber o que estão, de fato, reivindicando. Cansei de ônibus quebrados em forma de manifesto, de discursos marxistas, panfletos anarquistas e o velho papinho contra o Sistema. Cansei de aplaudir greves de quem já ganha muito bem. O Sistema somos nós, meu! O terrorismo está no nosso sangue de qualquer maneira, seja pelo bem ou pelo mal, mas ainda acredito que há de haver outra solução...
Um dia olhei pro lado e vi uma briga meio estranha, de gente disputando espaço no metrô, quase aos tapas por conta de uma cadeira vazia. E esse meu vazio aqui dentro, será que ninguém se dispõe a disputar?  Mas passei a entender que se vazio fosse tão ruim, não seria nobre o suficiente para selecionar companhia e não escolher ninguém.
Vejo tanto caos causado por ações próprias e falta de cultura causada por puro comodismo, mas ninguém assume a culpa. Se matam só para encontrar alguém que possam apontar seus dedinhos podres.  E eu não, eu me ocupei demais ignorando o que não se pode ignorar e quando me dei por mim, parecia tarde. Mas é fato que tentei de tudo, de tudo mesmo, pra sarar a ferida que eu nem sabia que existia, e quando descobri, já cobria meu corpo inteiro. Eu era uma ferida viva à prova de tudo. Remédio pra mim virou religião: muita fé e pouca prova.
Eu aprendi tarot, conheci candomblé em Salvador, fui em cultos da Adventista à Assembléia, raspei o cabelo, dancei em terreiro, conheci o Budismo, fiz meu mapa astral, usei todo tipo de alucinógeno, fiz moicano na faca, fui na Igreja Universal e passei mal, tentei ler a Bíblia e dei risada. O fato de me achar esperta demais me ajudou a não entrar em barca furada. Ninguém conseguiu me comprar na base do medo, minha inteligência não é moeda de troca. Ninguém me convenceu a ser boa só pra conquistar uma vaga no tal paraíso. Meu paraíso já havia sido visitado e muito bem vivido, obrigada. Só o que eu queria era paz. Ponto.
A verdade é que esse limbo nem tem nome, e se eu me despeço do mundo real, é tendo a consciência de que o dia de amanhã poderá ser melhor se EU quiser. Mas que para preencher aquele espaço vago seria preciso muito mais do que os shots de tequila e os rolês da rua de trás.
Minha ferida vem da terra. Minha fé nasceu do pó. Eu fui ao seu inferno mil vezes, e quer saber? Nem achei tão ruim assim.

Difícil é acordar de um sonho bom. Dias difíceis servem para nos ensinarem a dar valor à harmonia. O "está tudo bem" sem ter nada bom para contar é bem melhor do que os agitos que namoram tragédias à distância. E se hoje estou em paz, é porque estou sóbria do ilegal.

Ellen F.





Nota: Dedicado a todos aqueles que já passaram pelo que passei e aos poucos que entenderão, de fato, o que eu quis dizer ;*

Hell



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Hell (bat0mcomalcool)

AUTOR

Hell (bat0mcomalcool). Vulgo Hell {Ellen F.}. Ex-punk, fumante inveterada, colorida e rabiscada. Geminiana em dobro. Filha de Xoroquê e neta da Grande Mãe. Adotou o deboche como filosofia de vida e aceita a decadência como eterna companhia. Viciada em História, política, poesia, cultura vintage, seriados, literatura e The Sims.

3 comentários:

  1. "Somos finos como papel. Existimos por acaso entre as porcentagens, temporariamente. E esta é a melhor e a pior parte, o fator temporal. E não há nada que se possa fazer sobre isso. Você pode sentar no topo de uma montanha e meditar por décadas e nada vai mudar. Você pode mudar a si mesmo para ser aceitável, mas talvez isso também esteja errado. Talvez pensemos demais. Sinta mais, pense menos." O velho e tarado Buk já dizia.

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  2. to arrepiada
    de todos foi o melhor que jah li
    pke eu jah passei por toda essa treta tambem e sinto qnd alguem foi ao fundo do poço como eu msm fui
    e sentir e resentir a dor
    nossa
    posso copiar hell? mas dou os creditos no face claro ^^

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