Oráculo

sábado, janeiro 04, 2014 Hell F. 3 Comentários


(Divulgação: Internet)


Eu fazia minha a nossa voz gritando: "Fora, porcos capitalistas!!!", em um mar de gente despreocupada com a vida e interessada em demasia com a pose de eterna adolescência. Era o coro dos insolentes, que ainda não conheciam a vida o suficiente para reclamar dela com razão. Nos sentíamos crucificados vivos como Cristo só que sem sangue jorrando, vendo nossas ideias sendo aceitas com sorriso de deboche seguidas daquela velha frase que tanto dói: ‘’Isso é fase’’.
E cá estou eu, dez anos depois, tomando um café pré-diabético entre meu cigarro mentol e meu Nietzsche em cima da mesa, esperando bons amigos para rir do passado e contrariar o futuro que tanto tentei insistir. Nunca me senti tão sozinha como hoje, observando passos apressados entre turistas e trabalhadores pela rua do bar, todos tão preocupados com suas vidinhas, suas dívidas, seus relacionamentos, seus problemas... Starbucks virou meu oráculo, a cada grama de açúcar, um julgamento cruel do amanhã.
Perdi o interesse pelo espelho, agora o que me importa é a carne pura, viva e sensível, tomei consciência de que não sou mais do que uma alma perdida em um corpo judiado por excessos. Cada porre, um sorriso. Cada briga, uma nova manchete na boca da galera. Eu, por dentro, não passava de víscera, pulsação e um pulmão bronzeado de Marlboro vermelho. Penso, logo bebo e dispenso. Dispensei  a sabedoria ao nosso dispor para preencher um ego arrogante. Mas não me arrependo, fez parte de mim. De repente a preocupação virou chiclete grudado no cabelo e o “depois” chegou cedo demais. E eu que já perdi um par do coturno numa noite de amnésia, hoje em plena luz do dia estou mais do que sóbria calçando chinelos numa folga do cotidiano. Eu já não me reconheço mais, é verdade. Mas gosto do que vejo porque o que enxergo é apenas sentimento, não mais o visual arrastado de contradições.
“Cresça e apareça”, amadureça e ferva em dúvidas. O caos mora dentro de cada um, o macete talvez seja nunca se preocupar. O meu “nunca” pediu arrego e cá estou, no relento do pensamento concreto de que a realidade é dura demais para ser ignorada a longo prazo. Oráculo dos novos bobos, a vida adulta que não dá férias à felicidade plena. 
(Divulgação: Internet)

Hell
{Ellen F.}


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Hell (bat0mcomalcool)

AUTOR

Hell (bat0mcomalcool). Vulgo Hell {Ellen F.}. Ex-punk, fumante inveterada, colorida e rabiscada. Geminiana em dobro. Filha de Xoroquê e neta da Grande Mãe. Adotou o deboche como filosofia de vida e aceita a decadência como eterna companhia. Viciada em História, política, poesia, cultura vintage, seriados, literatura e The Sims.

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